A inclusão é parte da saúde mental- Simone Cafeseiro explica

A inclusão é parte da saúde mental- Simone Cafeseiro explica

Quem disse que para ser alguém extraordinário é preciso ser alguém que se encaixa no padrão de “normalidade” da sociedade? Quando falamos sobre patologias da mente, precisamos ter cuidado para que os diagnósticos não se tornem estigmas preconceituosos na vida das pessoas. O normal e o patológico podem apresentar perspectivas diversas quando se trata do ser humano. Vivemos em um sistema social que funciona de forma prototípica, e induz toda a sociedade a se encaixar nesse funcionamento.

As políticas públicas de inclusão, ainda são precárias no Brasil. Crescemos ouvindo que aprender a falar o inglês é essencial para nos relacionarmos com o resto do mundo, a disciplina é apresentada desde a educação básica, mas não somos inseridos na linguagem de Libras, para nos comunicarmos com os surdos que nos cercam. Essas pessoas que precisam estabelecer diálogos e ter os mesmos direitos de acessibilidade que os ouvintes possuem, veem suas angustias serem ignoradas por uma população incapaz de enxergar suas necessidades.

A poucos dias, a adolescente Greta Thunberg de 16 anos, comoveu o mundo com um discurso ativista de proteção ao meio ambiente. A surpresa ainda maior, foi saber que a jovem possui diagnostico de Asperger, uma síndrome que faz parte do espectro autista. O espanto revela o quanto ainda somos despreparados para lidar com o que foge à regra.

Pessoas que possuem patologias de ordem genética ou desenvolvem transtornos comportamentais em algum momento da vida, continuam sendo pessoas que sentem, que pensam, que vivem, que produzem, que criam, ainda que o funcionamento psíquico destas, seja diferente do nosso.

Infelizmente, as escolas ainda não funcionam de maneira inclusiva como deveriam, o ensino não consegue acolher a diversidade. Crianças como a Greta, nem sempre encontram um ambiente capaz de compreender e estimular os seus potenciais.

É comum que estudantes com dislexia e TDAH, passem por diversas reprovações e experiências de frustração no período escolar, visto que as instituições de ensino não trabalham com métodos avaliativos que alcancem e acolham os inúmeros modos de aprendizagem dos alunos.

A maioria das crianças também não recebem educação inclusiva em casa, e quando chegam na escola reproduzem com os coleguinhas que são diferentes, a mesma visão preconceituosa que aprendem muitas vezes, com a família. E a família, reproduz o que recebe da organização social na qual está inserida.

O estranhamento é resultado de um déficit de empatia que faz parte de uma cultura segregadora.

O problema se torna ainda mais doloroso, quando a família despreparada para lidar com essa realidade, se vê diante de um filho diagnosticado com alguma síndrome que o retira da norma dos círculos sociais.

É comum que mães e pais de crianças autistas, tenham dificuldades em lidar com seus filhos, o que por vezes, os leva a viver um processo de negação do diagnóstico da criança. Se recusam a acreditar, e isso gera mais um problema, já que o diagnóstico é um caminho para traçar vias de estímulos, e o quanto antes forem aplicados, melhor será para o desenvolvimento da criança.

Mas, que bom que a Greta teve a chance de mostrar ao mundo o quanto ser alguém extraordinário, tem muito mais relação com as nossas virtudes e capacidade de alteridade, do que com o tipo de neurose ou patologia que pode nos afetar.

Como diz o ditado popular: “de perto, ninguém é normal”.

Talvez, estejamos nos olhando com muita pressa e distancia. Talvez, estejamos deixando de olhar uns para os outros.

E se formos capazes de reconhecer esse desacerto que estamos cometendo, já teremos a possibilidade de mudar esse cenário, ou de nos movimentarmos em direção às mudanças necessárias. Lembremo-nos que somos parte de uma única espécie, mas são as nossas diferenças que nos tornam únicos.

Simone Souza Cafeseiro.

Psicóloga- (CRP-03/19407)

Licenciada em História e pós-graduada em Psicopatologia Clínica.

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