Campeã de tudo no Fut 7, baiana concorre a prêmio de melhor treinadora do mundo

Campeã de tudo no Fut 7, baiana concorre a prêmio de melhor treinadora do mundo

Ex-jogadora de futebol feminino, Dilma Mendes precisou vencer alguns obstáculos até chegar ao topo do Fut 7 como treinadora da seleção brasileira. Vinda de família humilde, a baiana de Camaçari começou a jogar bola com seus cinco irmãos, mas precisou se esconder da polícia e da própria mãe para continuar no esporte. Com muito carinho, a treinadora ainda lembra da ajuda que teve do pai, seu fiel escudeiro.   “Joguei bola numa época que era proibido por lei. A polícia prendia mesmo. Porém, eu sou de uma família de cinco homens e duas mulheres. Então, meus irmão acabaram me convencendo a jogar bola e, hoje, eu agradeço por isso (risos). Meu pai sempre foi meu aliado. Minha mãe nunca que ia aceitar eu jogar futebol naquela época. Eu tinha que pagar geladinho para os ‘caras’, aí eu armava uma covinha, quando a polícia vinha, eu me escondia. Era meu refúgio. Foram tempos difíceis. Meu pai me escondia da minha mãe. Ele mudava até a hora do relógio para enganar minha mãe e ela pensar que eu chegava no horário correto. Tínhamos um sinal, eu assobiava para ele saber que eu cheguei. Depois de um bom tempo meu pai colocava o horário correto. Só vim contar esse segredo para a minha mãe quando ela tinha 94 anos. Ela morreu aos 96. Ela disse que desconfiava de mim e do meu pai (risos). Óbvio que tinha dia que não dava… Então, entre fazer o gol e tomar um puxão de orelha, eu preferi fazer o gol”, relembrou Dilma em entrevista ao Bahia Notícias.   “Meu pai acordava de manhã e dizia que não estava a fim de tomar café, mas é porque ele queria que os filhos se alimentassem. Ele dizia que estava em jejum. Até ali a gente não entendia, mas depois passa a entender quando vai crescendo. Ele sempre dizia que eu precisava estudar antes de pensar em ser jogadora. Ele falava que ia me ajudar, mas para isso eu tinha que passar de ano na escola e nunca beber ou fumar. Até hoje, não sei nem o gosto”, completou.   Atual treinadora da seleção feminina, Dilma conquistou a tríplice coroa em 2019, ao vencer a Copa América, Copa do Mundo e Liga das Nações. Com a grande temporada, a baiana está concorrendo ao Football 7 Stars, principal prêmio individual da Federação Mundial de Football 7 (FIF7). A premiação é um reconhecimento dado ao trabalho realizado por atletas, treinadores e ligas esportivas no decorrer do ano. Ela disputa o título com Maksim Kovalchuk, da Rússia, e Cesar Gonzales, da Argentina. Ao BN, Dilma destacou a importância de concorrer como melhor treinadora, principalmente por ser mulher, negra e nordestina.   “A gente fica muito feliz. Foram 24 seleções no Mundial, e a gente está concorrendo com dois grandes. Como Dilma Mendes, quero mais. Mas como mulher nordestina e negra, é um feito ainda maior. Estamos enfrentando os técnicos da Argentina e da Rússia, que foram dois grandes adversários nossos. A expectativa é a de que a gente chegou onde mereceu. Enquanto treinadora, sempre galguei ter um título Mundial. Eu tenho um trabalho social de meninas de seis a 16 anos que elas não pagam. É um projeto que trabalho com a transformação. Esse título pode engrandecer não só a mim, mas a todas as mulheres. Tenho consciência que vivo um momento melhor que os meus dois adversários. Quando a gente entra numa competição, entra para ganhar. A expectativa é enorme. Vou comemorar bastante se vencer. São três feras. O Futebol 7 na Rússia é referência. A Argentina também tem uma escola muito forte na modalidade. São escolas estruturadas, e estamos caminhando para isso também”, afirmou Dilma.   Apesar de ter conquistado os três principais títulos da modalidade, Dilma lamenta o preconceito ainda ser muito grande no futebol. Também treinadora do time masculino Camaçari/Vitória, a baiana cita alguns casos em que sofreu discriminação por ser uma técnica mulher.   “Sou treinadora do masculino no Camaçari/Vitória. Falar da mulher ainda existe. Fui para uma etapa do Brasileiro, ganhamos o Ba-Vi, e no outro dia eu ia enfrentar um time de fora, que prefiro não revelar. Cheguei no jogo de calça e camisa, mas quando vou para o vestiário, já estou de bermuda, só que o cara não me reconheceu. Quando eu entrei, eles estavam na mesa e não sabiam que eu era a adversária deles, e estavam justamente comentando sobre mim. ‘Não é possível, vocês acham que a gente vai perder a semifinal para um time comandado por uma mulher?’. Pensei logo que tinha que ganhar de todo jeito. Há discriminação muito grande. É preciso ter conhecimento de causa. Às vezes vão para o jogo para ver o que estou falando. Costumo dizer que sou uma Dilma fora e outra Dilma lá dentro. Me transformo. O início foi muito pior. Eu pedia para o jogador fazer uma coisa e ele fazia outra. Eu dizia o esquema tático e eles não seguiam. Eu tenho conhecimento de tudo. Eu ia para o regulamento para saber se estava correta. Sempre procurei aprender tudo. Eu, como treinadora, já tentei fazer substituição e o jogador não queria sair. Eu fui até o juiz e pedi que expulsasse meu atleta, caso ele não saísse”, contou Dilma.   “Estou feliz pelas minhas conquistas, mas por outro lado estou triste, pois sinto falta de ver mais mulheres no esporte. Eram 20 equipes no campeonato, eu era a única treinadora, vencia a competição, mas nunca era eleita a melhor. Isso só veio mudar nos últimos quatro anos. Quebrei o tabu em 2013, e venci também em 2016 e 2019”, finalizou.   CARREIRA Após uma lesão no joelho, Dilma encerrou a carreira de jogadora e passou a ser treinadora em 1982. Ela fundou o primeiro time de futsal de sua cidade. Cuidou da base do projeto Campo-Mar, onde revelou grandes jogadoras, com destaque para a volante Formiga.   “Começamos a trabalhar com ela desde os nove anos de idade. Tínhamos um time muito bom e fomos convidados pela SAAD para representar o clube no Campeonato Brasileiro. Saímos daqui com seis jogadoras que depois disputariam a Olimpíada de 1996. Além da Formiga, tínhamos Solange, Didi, Tânia Maranhão, entre outras… E conquistamos o título brasileiro”, destacou Dilma.   No início dos anos 2000, Dilma resolveu encarar o desafio de assumir um time masculino. Ela lembra das dificuldades, mas destaca a importância: “resolvi sair da minha zona de conforto e fui treinar um time masculino. Foi um dos maiores desafios, mas sempre costumo dizer que serve como conhecimento. Hoje sou treinadora da seleção baiana masculina de fut7 e do Camaçari fut7 Vitória também.

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