Cinema enfrenta cortes e diretores refletem sobre como sobreviver à crise

Cinema enfrenta cortes e diretores refletem sobre como sobreviver à crise

A cada semana, um novo episódio reacende o debate em torno da produção do cinema brasileiro, que neste ano enfrentou uma série mudanças polêmicas. O primeiro filme dirigido pelo ator baiano Wagner Moura, Marighella, por exemplo, teve sua estreia cancelada no Brasil segundo sua produção por conta “da demora nos trâmites exigidos pela Ancine” e, na quinta-feira (14), anunciou que será lançado como série pela Globo.

Antes mesmo que a assessoria de imprensa do filme confirmasse a notícia – com a ressalva de que a série sairá, sim, mas após o lançamento do longa-metragem nas salas de cinema, em 2020 -, produtores, cineastas e amantes do cinema retomaram o fôlego para refletir sobre os impactos das mudanças na produção nacional. Quais são as principais dificuldades e como sobreviver a elas?

“O setor sofre forte asfixia, desde o início do ano. Dos R$ 700 milhões previstos para o audiovisual, nem R$ 100 milhões foram gastos em 2019”, alerta o cineasta baiano Cláudio Marques, 49 anos, idealizador do Panorama Internacional Coisa de Cinema. Diretor de filmes como Depois da Chuva (2013) e A Cidade do Futuro (2016), Cláudio cita que “o Governo quer acabar com o Fundo Setorial e utilizar a verba para pagar a dívida pública”.

“Essa PEC já está em discussão. Assim, teremos cerca de 300 mil empregos subtraídos. Muitos estruturaram suas vidas em torno do cinema nas últimas décadas e estão perdidos, sem saber o que fazer. Produtoras estão sendo fechadas, quem pode vai para o exterior ou o interior do país. Todas as conquistas estéticas, culturais e de representatividade fora do país estão em risco. Uma pena. É muita tristeza”, lamenta Cláudio, que não sabe apontar quantas produtoras foram fechadas.

Ao lembrar que 2019 teve produções que ainda contaram com o dinheiro do ano passado, Cláudio faz um alerta: “O ano que vem será catastrófico para o cinema brasileiro”. “Conheço produtores de expressão que não filmaram absolutamente nada no segundo semestre de 2019. E que não possuem nenhuma verba para o ano que vem. Produtoras que tinham entre 20 e 30 empregos fixos. Como sobreviver?”, questiona.

Mudanças
Entender o que acontece com o cinema, hoje, requer o acompanhamento dos fatos que não param de surgir. Por isso, antes de mostrar algumas das estratégias de sobrevivência dos cineastas, vale ressaltar mudanças enfrentadas pelo audiovisual, como a transferência do Conselho Superior de Cinema (CSC) – que cuida dos editais da área – do Ministério da Cidadania para a Casa Civil.

Vale citar, ainda as ameaças à Agência Nacional de Cinema (Ancine) e ao Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Em julho, o presidente Jair Bolsonaro criticou o suposto “ativismo” na produção cinematográfica nacional, dando como exemplo o filme Bruna Surfistinha, sobre uma ex-garota de programa. Em seguida, declarou que, se não for possível impor mecanismos de “filtro” aos filmes, vai extinguir a Ancine.

Depois, em agosto, após afirmar que queria um nome “terrivelmente evangélico” para comandar a Ancine, Bolsonaro defendeu que é preciso “tirar” dos órgãos públicos as pessoas que “não aprovam” filmes com a “temática do nosso lado”. “O tempo vai fazer a gente descontaminar esse ambiente para a boa cultura no Brasil”, disse o presidente na época.

Em seguida, em setembro, Bolsonaro anunciou um expressivo corte orçamentário para 2020. O projeto de Lei, apresentado ao poder Legislativo, prevê o corte de 43% do FSA, garantindo apenas R$ 415,3 milhões para o ano que vem. Esse é o menor orçamento desde 2012, quando o FSA recebeu R$ 112,36 milhões.

A redução da verba foi anunciada um ano depois do cinema reunir números animadores na Ancine: em 2018, foram registrados 185 lançamentos brasileiros, a maior quantidade dos últimos cinco anos. No mesmo ano, foram vendidos mais de 163 milhões de ingressos e mais de 24 milhões de pessoas assistiram às produções brasileiras, o que representa um aumento de 28% em relação a 2017.

“É um momento muito ruim, muito triste, de retrocesso da produção”, lamenta o cineasta baiano Sérgio Machado, 50, sobre os cortes recentes. Diretor de filmes como Cidade Baixa (2005) e A Luta do Século (2016), além de assinar a série Irmãos Freitas (2019) com Walter Salles e Aly Muritiba, Sérgio acredita que “o que está segurando um pouco o topo da cadeia alimentar são as séries”.

Estratégias
Após o sucesso da primeira temporada de Irmãos Freitas, cujos oito episódios sobre Popó e o irmão foram feitos “como se fossem oito longas-metragens”, Sérgio recebeu propostas para a realização de outras séries. Enquanto colhe os frutos e pensa em uma segunda temporada, o cineasta segue montando com certa dificuldade seu próximo filme, Cidade Ilhada, inspirado no conto de Milton Hatum.

“É um momento muito duro. Quem realmente quiser fazer cinema, faça como der. A gente vai ter que achar uma maneira criativa de produzir com menos. Em Cidade Ilhada, por exemplo, a gente começou com uma equipe de 40 pessoas e terminou com oito, porque foi uma forma de lidar com os efeitos que já chegaram pra gente”, revela Sérgio, sobre o filme cujo elenco conta com Daniel Oliveira, Rômulo Braga, Gabriel Leone e Sophie Charlote.

Daniel Rocha vive Popó e Rômulo Braga é Luís Cláudio na série Irmãos Freitas
(Foto: Canal Space/Divulgação)

Preocupado com as mudanças no setor audiovisual, Sérgio acredita que os efeitos “dessa política cultural dura” serão sentidos, de fato, só daqui a dois anos. Apesar do momento difícil, o diretor acredita que “daqui a um tempo, isso vai acabar e a gente vai se reconstruir”, por isso “é sempre bom manter a esperança, porque o pessimismo é algo paralisante”.

“Agora é torcer, tentar o equilíbrio e não parar de produzir. O que eu posso fazer? É fazer filme”, afirma Sérgio, convicto.

“Um país sem cinema, sem cultura, é uma casa que não tem espelho e não tem janela. Você não olha pra si mesmo nem pro mundo. A única esperança é que sobreviveremos. Já passamos por isso antes”, reflete Sérgio Machado.

Outras vozes
Os primeiros a serem afetados, em sua opinião, são os cineastas da geração mais jovem, principalmente, os que atuam fora do eixo Rio-São Paulo. Um deles é o mineiro Ary Rosa, 32, que mora em Muritiba há dez anos, atua no Recôncavo baiano e dirige filmes premiados como Café com Canela (2017) e Ilha (2018), junto com a cineasta Glenda Nicácio, 27.

Apesar de enxergar um “momento caótico, triste e que não sugere perspectiva para o campo da cultura”, Ary também acredita que as coisas vão melhorar no futuro. “As coisas são cíclicas e a gente tem que estar preparado pra quando a maré virar ter força pra continuar nosso trabalho e fazer o que a gente acredita”, defende.

Enquanto isso, ele e Glenda focam nas estratégias de sobrevivência. Com parte da verba arrecadada com Café com Canela, por exemplo, que teve bilheteria expressiva e foi vendido para o Canal Brasil, a TVE e a Amazon, os dois fizeram seu próximo filme, Até o Fim. Realizado com equipe pequena de onze pessoas, quatro atrizes e uma locação, o longa deve ser lançado no início do próximo ano.

“Agora, o grande desafio é sobreviver”, conclui o diretor que quebra o monopólio do Sudeste ao lado de filmes nordestinos como o cearense A Vida Invisível, que concorre a uma vaga no Oscar, e o pernambucano Bacurau. “A democratização do acesso ao cinema, à cultura, é fundamental. Quanto mais democratizado o processo de produção e o acesso a ele, o país é mais forte, desenvolvido e tem mais força pra resolver seus dilemas políticos e econômicos”, resume.

Mudanças recentes no cinema

Julho
O presidente Jair Bolsonaro criticou o suposto “ativismo” na produção do cinema, disse que filmes como ‘Bru- na Surfistinha’ não deviam ter dinheiro público e defendeu a extinção da Ancine caso não pudesse ter ‘filtro’

Julho
Bolsonaro anuncia a mudança do Conselho Superior de Cinema (CSC) do Ministério da Cidadania para a Casa Civil

Agosto
Após afirmar que queria um nome evangélico para comandar a Ancine, Bolso- naro defendeu que é preciso “tirar” dos órgãos públicos as pessoas que “não aprovam” filmes com “temática do nosso lado”

Agosto
Produtores, cineastas, roteiristas, atores e pessoas ligadas à cultura na Bahia lançaram um manifesto em defesa do cinema nacional e da Ancine. O documento contou o apoio de nomes como Wagner Moura, Helena Ignez, Orlando Senna e Henrique Dantas

Setembro
Bolsonaro anunciou, para 2020, o corte orçamentário de 43% do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), garantindo apenas R$ 415,3 milhões para o ano que vem. Esse é o menor orçamento desde 2012, quando o FSA recebeu R$ 112,36 milhões

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