Conheça projetos sociais que transformam a cara da moda em Salvador

Conheça projetos sociais que transformam a cara da moda em Salvador

Três projetos sociais de Salvador, que mobilizam centenas de pessoas ano a ano através da moda e da arte, estão junto ao Afro Fashion Day como agências e levarão onze modelos para a passarela. Todos já tinham relação com o evento, e agora estreitam isso de maneira ainda mais profissional. “Decidimos convidá-los para integrar o time de agências por acreditar no talento dos seus integrantes e entender que esse é o papel do evento enquanto iniciativa que valoriza a competência do modelo negro, contribuindo para abrir espaço nesse mercado de trabalho ainda tão difícil e com poucas oportunidades na Bahia”, diz Gabriela Cruz, editora de Conteúdo do Estúdio Correio sobre a Focus Moda e Produções, o Jovens Periféricos e a PJT Models.

Juntos, os três projetos mantém muitas convergências entre si. A primeira delas é o entendimento de que a moda é excludente, mas que é possível alargar os padrões que ela costuma impor. “A moda é legal, mas a moda frustra”, dispara Jonas Bueno, 26, idealizador da Focus Moda e Produções. “Não estamos procurando a menina de 1,75 ou o cara de 1,80, pelo contrário. Estamos buscando frustrados com a moda, dentro da diversidade”, diz ele sobre o projeto que idealizou há cinco anos, e que hoje ocupa quatro espaços culturais da cidade, dentre eles, o Casarão da Diversidade, no Pelourinho, onde acompanhamos o ensaio para o espetáculo Navio Negreiro dos Tempos Atuais, que eles apresentam no próximo dia 24, nas ruas do Centro Histórico.

(Foto: Betto Jr/ CORREIO)

Jonas também é um frustrado com a moda. Depois de ir morar em São Paulo para viver do sonho, decidiu voltar e mostrar a outros meninos como ele que era possível. “Sempre ouvi que a moda não era para mim, porque eu era negro, porque não tinha estudo, porque minha pele era manchada, porque precisava falar bem. Só que eu idealizei tudo de uma forma, e quando entrei vi que era ainda mais cruel. É um mercado para poucos, para quem aguenta passar por opressão, por seleção, por escolhas”, elenca.

Da experiência fora, colheu o que tinha de colher, encheu as malas e voltou, disposto a promover uma mudança. Em quinze dias, surgiu a Focus Moda e Produções. O nome também veio rápido. “Foco, todo mundo precisa ter isso, independente da carreira”, defende.

Algo que ele aprendeu lá atrás, quando participava do PJT Models, liderado por Sivaldo Tavares, 50. Aliás, Sivaldo foi professor não só de Jonas, mas também de Jadison Palma, idealizador do Jovens Periféricos. Sobre inspirar tantos jovens a mobilizarem tantas pessoas através da moda e da arte, Sivaldo diz: “Para você ver como é importante, é algo maior do que a gente próprio imagina. Você ajuda a enobrecer, a formar caráter, a fortalecer autoestima, a despertar para a cidadania e para a arte”. Um desafio diário, presente ainda hoje, quinze anos depois de fundar o projeto.

(Foto: Marina Silva/ CORREIO)

Desafio que Jadison Palma, do Jovens Periféricos, tem começado a vivenciar com mais intensidade agora, com o alcance do seu projeto. O que surgiu da busca de modelos para desfilarem com sua marca de camisetas virou um projeto social que empodera gente de 5 a 35 anos através da educação. “Comecei com 15 pessoas há dois anos e hoje já são 178, só em Plataforma”, destaca. Participar do Afro Fashion Day como agência foi um sonho planejado. “Participei das seletivas de modelos nos bairros por dois anos seguidos, fui para a final e representei quase 600 jovens do projeto”, completa Jadison, que esse ano desfila pela primeira vez no evento, ao lado de outros três alunos da Jovens Periféricos.

(Foto: Marina Silva/ CORREIO)

Conheça mais de cada um dos projetos abaixo:

FOCUS MODA E PRODUÇÕES Nada no projeto criado por Jonas Bueno, 26, é por acaso. Desde o nome, a Focus Moda e Produções comunica tudo que propõe fazer: conquistar pessoas através da moda e da produção artística-cultural, e transformar suas histórias individuais e coletivas. Para isso, é preciso foco e persistência. “Eu sei que nem todo mundo vai virar modelo, sei que nem todos vão colocar em prática aquilo que sonham, mas tiveram oportunidade, e com foco, é possível”, defende Jonas, ao emendar uma crítica sobre a falta de incentivo para a manutenção de projetos como o dele. “Acho um absurdo ter que falar sobre as dificuldades que enfrentamos, porque a sala está cheia. Basta olhar. Essa galera aqui, sem estudo, sem instrução, rouba, mata, faz besteira, para uma cidade. E faz tudo isso unicamente por falta de oportunidade e incentivo”, diz. Quatro bairros de Salvador recebem atividades fixas do projeto: Vista Alegre, Plataforma, Valéria e Pelourinho. No ano passado, Jonas ficou em primeiro lugar na seletiva do Afro Fashion Day, e esse ano leva mais três alunos do projeto consigo para a passarela do evento. “Para eles acontecerem, eu tenho que acontecer primeiro. Porque eu tenho certeza que se eu for, eles vão. E de onde eu venho, tem mais. Eu me sinto um anzol, e acredito que ninguém jogA um anzol no mar para não pegar nada”, compara. Na Focus, um espetáculo é ensaiado em um mês. Um desfile, organizado em duas semanas. Uma motivação a mais para manter o foco, e dar o melhor de si sempre. “Eu gosto desse desafio, é uma motivação a mais. A gente consegue fazer as coisas mais centrado”, diz Raíza Carvalho, de 17 anos, vencedora do Concurso Mona Crespa 2019 sobre a “loucura maravilhosa” que o projeto permite. Mãe de uma aluna do projeto, Gilmara Ferreira Góes é só elogios. “Minha filha sempre teve o sonho de ser modelo, mas as agências cobram muito caro. Toda vez que eu ia, minhas condições não permitiam. Ouvi falar do projeto, e procurei Jonas pela internet. Viemos para cá, e nesses três anos minha filha já desenvolveu muitas habilidades que ela nem imaginava”, destaca.

(Foto: Betto Jr./ CORREIO)

PJT MODELS Sivaldo Tavares chegou à moda através da dança. Na época em que integrava o Balé Folclórico da Bahia, era chamado por estilistas e produtores culturais para se apresentar durante os desfiles que rolavam na cidade. Um dia, conversando com um jornalista americano que cobria um desses eventos, se intrigou com a reação do estrangeiro ao ver os modelos na passarela: “Parece que estou em Paris!”. A frase soou como uma provocação a Sivaldo, que em 2004 promoveu um desfile no Pau Miúdo, bairro onde morava, tentando reverter a lógica dominante. “Aquela garotada começou a me procurar, dizendo que queria trabalhar com moda profissionalmente, e comecei a indicar algumas delas para as agências”, recorda. Na época, os bookers mais prestigiados ficavam nos bairros nobres da cidade, e olhavam apenas para o padrão branco. “Se ainda hoje a gente nem chega perto da Alameda das Grifes, parece que tem algo invisível que dá choque que se a gente passa por lá, a gente nem olha para a vitrine, imagine quinze anos atrás”, recorda. Era preciso provar que os negros também sabiam desfilar, mas não só isso. “Para mim, não bastava fornecer ao mercado negros dentro do perfil exigido. Comecei a abrir as aulas de passarela a todos aqueles que quisessem, sem exigências”, conta. Era o início da PJT Models, projeto social que já mobilizou milhares de jovens pobres de Salvador ao longo da sua trajetória. “Aqui são repassadas orientações para a vida. A gente mexe com a autoestima, a disciplina, com o saber se portar, se vestir. Vale para quem vai seguir carreira de modelo, e para quem vai descobrir outros talentos e fazer outras coisas da vida”, defende. A tarefa é árdua. Sivaldo não deixa de fora temas delicados, como o racismo estrutural. Conta aos alunos parte das suas vivências, de modo a alertá-los para as dificuldades que muitos deles já vivem, mas nem percebem. “Outro dia, levei dois alunos do projeto para fazer um job em uma loja, e quinze dias depois eles ainda não tinham recebido o valor combinado. Nesse mesmo trabalho, tinha outros dois modelos de uma agência famosa, que receberam. Eu liguei várias vezes para a contratante, cobrando, pedindo que cumprisse o acordado, e nada. Fiz um escândalo, xinguei, e na hora fui chamado de desrespeitoso, de raivoso”, lembra. “Revidei perguntando se o descaso para pagar os meus modelos não era desrespeito. E é sempre assim, o esforço do preto para conseguir alguma coisa é triplicado, e as pessoas acham que é mimimi”.

(Fotos: Marina Silva/ CORREIO)

JOVENS PERIFÉRICOS Foi no bairro de Fazenda Coutos 3, onde nasceu, que Jadison Palma organizou seu primeiro desfile de moda. Era 2016, ele tinha 22 anos e uma marca de roupas com as iniciais do seu nome, JP. Com o desfile, queria reunir amigos, mostrar suas criações e movimentar o bairro. Conseguiu todos os objetivos, reunindo centenas de pessoas no fim de linha. “Eu precisava mostrar meu trabalho à minha comunidade, e ali percebi que poderia fazer algo ainda maior”, relembra. Foi assim que o JP de Jadison Palma se transformou no projeto social Jovens Periféricos, que hoje mobiliza mais de 150 alunos. A casa é o Centro Cultural Plataforma, onde se reúnem aos domingos, mas há encontros em Fazenda Coutos 3 e no Centro de Cultura da Câmara Municipal. “A juventude de Salvador é sonhadora”, diz Jadison sobre a vontade de alcançar todos os bairros. O projeto oferece oficinas de teatro, moda, música e dança, e tem parceria com a Universidade Estácio de Sá, que oferece 60% de bolsa para nossos alunos. “Eu sempre falo que tudo tem uma base, tudo tem que ter um começo. Quem quer ser jogador de futebol, antes de chegar à seleção, passa pelos times de base. E a gente prepara todo mundo para ser cidadão”, conta. Jadison, que já havia participado das seletivas do Afro e chegado à final no ano passado, vai desfilar pela primeira vez no evento. “Eu almejava isso, não por mim, mas pelos meninos. Se eu chegasse lá, seria mais fácil para eles acreditarem”, explica.

AS CARAS DO AFRO FASHION DAY 2019

(Foto: Marina Silva/ CORREIO)
(Foto: Marina Silva/ CORREIO)

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