Desastre ambiental: voluntários instalam barreiras para tentar conter óleo nas praias

Desastre ambiental: voluntários instalam barreiras para tentar conter óleo nas praias

Na tentativa de evitar que o óleo que atinge as praias também chegue nos mangues e estuários, moradores de locais atingidos improvisam barreiras de contenção com redes de pesca e de construção. Um desses casos acontece na Ilha de Comandatuba, no município de Una, onde o voluntário Mateus Quiroga montou uma contenção na Barra de Comandatuba.

Mateus criou uma barreira com sombrite, tipo de tela usado para fazer sombra em hortas. O voluntário contou ter tomado a iniciativa pela falta de ação do governo. “Eu cobrei um plano da prefeitura, estado e da federação para impedir a entrada no mangue de Comandatuba”, contou.

Enquanto os esforços de limpeza se concentravam nas praias, Mateus se preocupava com a entrada do óleo no mangue. A ideia ainda é um experimento. Por enquanto, apenas um remanso do rio está protegido para testar a efetividade da contenção.

“Pela ordem natural do rio, reparei que as áreas de deposição da barra ficavam nos remansos.Com meu amigo Wendel, tentei criar o projeto de fechamento parcial para capturar manchas de óleo maiores que poderiam entrar no mangue”, contou.

Barreira de sombrite instalada na Boca da Barra de Comandatuba (Mateus Quiroga/Reprodução)

O protótipo tem 15 metros e todo material usado foi comprado por Mateus. O projeto foi instalado no sábado (2), segundo o voluntário. “Coloquei a rede há dois dias. No domingo fiz o primeiro monitoramento e já tinha uma quantidade razoável de óleo na rede. O teste foi pequeno, se tivesse fechado uma área maior, teria um resultado maior”, contou.

O voluntário ainda fala de outros testes como o dele. Em outros locais em que as barras foram instaladas, moradores pescam o óleo com peneiras e redes assim que ela é contida pela barreira.

Parecer técnico
O Inema não tem um posicionamento sobre o uso de barreiras de contenção nos rios. Uma definição sobre o assunto deve ser divulgada após o resultado das análises que são realizadas pelo instituto no Litoral Norte.

Professor do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Miguel Accioly explica que as barreiras podem ser eficazes – até mais bem-sucedidas que as barreiras de contenção de óleo usadas por órgãos oficiais.

“Em alguns lugares, essas redes não permitiram a entrada de óleo. As barreiras de contenção fecham tudo e, com a correnteza muito forte, não funcionam. É preciso colocar em formatos mais complicados”, disse.

Ainda segundo ele, as barreiras de contenção são flutuantes e podem não capturar o óleo que é transportado em subsuperfície. Em casos de correntes mais fortes, como ocorre nos estuários, o uso de telas de construção e redes de pesca podem ter mais resultado.

O uso destes materiais pode trazer grandes benefícios por reduzir o tempo de resposta e a contaminação dos mangues e estuários, afirma Accioly. “Pode demorar para comprar a barreira de contenção e qualquer espera pode gerar um prejuízo imenso de contaminação de mangue. Se podemos reagir com telas ou redes de pesca, deve ser feito de imediato”, afirmou.

O professor ressalta que é necessário seguir as normas técnicas indicadas em cada caso para não trazer impactos negativos. Na Bahia, o comando unificado tenta passar instruções sobre o uso das barreiras por meio de professores da região. Ainda foi criado o manual como “pescar” petróleo?” sobre as ações para conter as manchas de óleo.

O texto aponta que redes pode ser montada na diagonal ao longo dos canais da barra sem fechar o rio para permitir a passagem dos peixes. Nos locais mais profundos do curso d’água, o manual indica o uso de âncoras Danforth ou Bruce e até de pedras enterradas.

Uma das implicações de uma barreira mal montada é a retenção dos peixes junto ao óleo. Accioly aponta que os animais podem desviar das redes quando elas são aplicadas de forma correta. “Não pode fechar o canal, a água tem que circular entre as redes. Geralmente, se coloca duas ou três barreiras. Assim, os peixes circulam, mas o óleo fica preso”, afirmou.

Ainda é necessário monitorar a barreira a cada seis horas para observar a situação da contenção, apontou o professor Ícaro Moreira, pesquisador do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

“Tem que ter uma vistoria porque o material se adere às redes. Se não tiver essa vistoria, se dá um processo de saturação da rede”, afirmou.

Como pescar Petróleo
O Comando Unificado da Bahia publicou um documento com indicações sobre como prevenir a contaminação dos estuários e da costa. Organizado pelo Prof. George Olavo, do Laboratório de Biologia Pesqueira da Universidade Estadual de Feira de Santana, e o professor Miguel Accioly, do Laboratório de Gestão Territorial e Educação Popular da UFBA, o manual foi desenvolvido em parceria com pescadores artesanais baianos.

O manual orienta o que deve ser feito para conter o óleo em cada situação. Em todos os casos, o documento aponta a necessidade do uso do equipamento de proteção individual (EPI).

Ações em mar aberto

Monitoramento:
• Com barcos de pesca, para identificação visual de manchas de óleo na superfície e sondagem com linha de mão e/ou lances de arrasto com trynet em locais estratégicos antes da zona de arrebentação, fora das barras de rios e dos recifes costeiros.

Captura do óleo para embarque:
• Com puçás grandes para manchas menores.
• Com siripóias (puçás gigantes) para manchas médias.
• Com tonéis furados manobrando com o guincho para manchas mais pesadas.

Condução do óleo em direção a praias de sacrifício:
• Cercando próximo à praia com redes de pesca (com a menor malha disponível) – para manchas maiores.
• Arrastando suavemente para a praia, de través, nunca contra a corrente.
• Manobrando com embarcações a remo e arrastando manualmente para a areia da praia.

Em barras maiores e profundas

Monitoramento:

• com barcos pequenos, para identificação visual de óleo na superfície

Captura do óleo para embarque:
•Com puçás para manchas menores
•Com siripóias (puçás gigantes) para manchas médias

Condução do óleo em direção a praias de sacrifício:
•Cercando próximo à praia com redes de pesca (com a menor malha
disponível).
•Arrastando suavemente para o ponto de sacrifício, de través, nunca contra a
corrente.
•Manobrando com embarcações a remo e arrastando manualmente para a
praia ou banco de areia.

Em pequenos canais de acesso ao mangue ou margem do mangue

Monitoramento:
• Monitoramento visual na superfície com barcos pequenos.

Captura do óleo:
•Com puçás para manchas menores
•Com cortinas absorventes de palha, galhos (casuarinas ou outras espécies abundantes de preferência exóticas).
•Também pode ser usado mantas de absorção ou mesmo sombrites ou telas de construção.

*Com orientação da editora Mariana Rios

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