É dependente de música? Radioca mostra uma safra pulsante; confira

É dependente de música? Radioca mostra uma safra pulsante; confira

“A música brasileira está uma merda” foi uma das frases mais repercutidas esse ano, mas, sem fazer qualquer tipo de julgamento, o que interessa é que a fala de Milton Nascimento levantou o debate em torno da atual música brasileira. E para alimentar ainda mais as discussões, o Festival Radioca acontece de quarta-feira (6) a domingo (10) com uma expressiva amostra do que tem sido feito pela nova geração de artistas.

O festival completa cinco anos com cinco dias de shows e bate-papos, em três espaços de Salvador: Teatro Castro Alves, Chácara Baluarte e Teatro Sesc-Senac Pelourinho. Quase 20 atrações compõem o evento, entre elas os cantores Céu, Tulipa Ruiz e João Donato, os dois últimos em um show conjunto, Lazzo Matumbi, Tim Bernardes, Tiganá Santana, Lívia Nery, Illy e Josyara, assim como as bandas Dônica e Afrocidade.

“Milton [Nascimento] acaba sendo a voz de um público que gosta de música, mas que não consegue perceber o que acontece com a música brasileira hoje. E é isso o que a gente se obriga a fazer com o Radioca: mostrar que existe Tim Bernardes, Amaro Freitas Trio, Tiganá… É essa provocação que a gente quer”, afirma o jornalista Luciano Matos, 43 anos, um dos curadores do Radioca.

Amaro Freitas Trio apresenta um jazz percussivo (Foto: Divulgação)

Apresentar produções relevantes da cena nacional sem cair no óbvio é, portanto, a proposta do Radioca, que foi criado a partir do programa de rádio de mesmo nome. Transmitido há onze anos pela Rádio Educadora FM, o Radioca é apresentado por Luciano com os músicos Roberto Barreto e Ronei Jorge, que também são curadores do festival junto com a produtora Carol Morena.

“Muito do que conheço, ouvi na rádio. Mas hoje em dia essas músicas não tocam na rádio, que toca sempre as mesmas coisas, os medalhões, os mesmos artistas”, critica Luciano. “Por isso, aqui tem novidade: toda semana no programa e no festival. Até no meio independente, o próprio público é meio preguiçoso para novidade. O festival serve pra isso também, ouvir algo que ele não conhecia”, convida o curador do festival que, em cinco anos, só repetiu um artista.

Intimista
Na abertura, o Radioca apresenta uma proposta inédita no Teatro Castro Alves, com uma noite intimista formada por três shows. Um deles é do cantor baiano Tiganá Santana, que lança seu quarto disco, Vida Código, marcado pela influência afrobaiana. Outro nome que se apresenta é Amaro Freitas Trio, grupo liderado pelo pianista e compositor pernambucano Amaro Freitas, que mostra um jazz instrumental percussivo que bebe no baião e no frevo.

Por fim, quem abre a primeira noite do Radioca é o cantor paulista Tim Bernardes, vocalista da banda O Terno que traz seu show solo para Salvador pela primeira vez. Em diálogo com a proposta da abertura – que é ser uma noite menos dançante e mais intimista – Tim recria, literalmente, o clima de seu quarto no palco do TCA. No show Recomeçar, o cantor é acompanhado por poucos elementos, como seu violão, um tapete e um abajur.

“Eu queria que a simplicidade fosse realçada, não queria que caísse no lugar do show do fulano com o violão e uma luz roxa piscando. Queria que parecesse mais uma cena e menos um show de um cara com um violão, uma mistura do aconchego do meu quarto com o clima de uma session no estúdio”, explica Tim, 28 anos. “Tudo isso para ser um show de um cara com um violão”, ri o cantor.

Baseada no disco Recomeçar, lançado em 2017, a apresentação passeia pelo repertório solo e inclui músicas gravadas com O Terno, que segue em projeto paralelo. “Tô bem animado, porque não consegui ir com o show Recomeçar para Salvador e porque fui recentemente com O Terno para o próprio TCA e fiquei impressionado”, lembra Tim, sobre a apresentação do grupo há pouco mais de dois meses. “O público de Salvador sempre foi muito querido comigo, tô muito feliz”, agradece.

Criatividade
Ao contrário da abertura, os outros dias de evento propõem encontros mais dançantes e até papos musicados, como o que acontece na sexta-feira, com participação de Josyara, Livia Nery e Tulipa Ruiz. Juntas, as três compositoras vão falar sobre seus processos criativos e demonstrar, ao vivo, o resultado de suas criações.

“O Brasil é conhecido por suas intérpretes, a gente fala pouco sobre as mulheres que compõem. Então um encontro como esse é potencializador. Tem o poder de multiplicar, inspirar outras mulheres”, elogia a cantora paulista Tulipa Ruiz, 41. “Esse lugar da música está cada vez mais ocupado por nós, mulheres. O Brasil não é só um país de intérpretes”, ressalta.

João Donato e Tulipa Ruiz se apresentam juntos (Foto: Divulgação)

Além do bate-papo, Tulipa se apresenta, no sábado, com o pianista e compositor acriano João Donato. Juntos, eles interpretam duas músicas inéditas, lançadas em agosto, além de sucessos da trajetória de cada um. “O repertório dos dois completamente amalgamados”, garante Tulipa, sobre o encontro com o ídolo de 85 anos que, em 2011, chegou com a partitura de sua música Efêmera perguntando: “Posso tocar com vocês?”.

“Cantamos e começamos essa amizade e admiração mútua. Gosto da energia que ela transmite, dá vontade de estar perto”, elogia João Donato, que se vê um artista conectado com seu tempo. “Sou plenamente contemporâneo. Faço parte desse mundo de hoje, mas em 1973 eu também fazia parte”, diz, citando Clara Nunes, Os Tincoãs, Caetano Veloso, João Gilberto e Gilberto Gil. “As coisas feitas agora são muito datadas. Minha música não tem data”, enfatiza.

É aí que mora a longevidade do artista, defende Tulipa, ao lembrar que depois do Radioca João Donato segue em turnê com o Bixiga 70 pela Europa. “A atemporalidade dele, o frescor, se dá porque o Donato está sempre conectado com o agora. Ele sabe muito bem o que está acontecendo hoje. Isso é muito maravilhoso”, elogia, deixando o convite para o Radioca.

PROGRAMAÇÃO SHOWS
Quarta (6), às 19h30
TCA Tim Bernardes (SP) + Tiganá Santana (BA) + Amaro Freitas Trio (PE)

Quinta (7), às 19h30
Arena do Sesc-Senac Pelourinho Luiza Lian (SP) + Livia Nery (BA)

Sexta (8), às 19h30
Arena do Sesc-Senac Pelourinho Tulipa Ruiz (SP) + Livia Nery (BA) + Josyara (BA) em ‘Processo criativo compartilhado: Papo Musicado’

Sábado (9), às 15h30
Chácara Baluarte
João Donato (AC) e Tulipa Ruiz (SP) + Afrocidade (BA) + Tuyo (PR) + Mestre Anderson Miguel (PE) com participação de Siba (PE) + Tangolo Mangos (BA)

Domingo (10), às 15h30
Chácara Baluarte
Céu (SP) + Lazzo Matumbi (BA) + Dônica (RJ) + Illy (BA) + Abayomy (RJ) com participação de Saulo Duarte (PA) + Jessica Caitano (PE)

PROGRAMAÇÃO BATE-PAPOS
Quarta (6), às 16h
Sala do Coro (TCA) Conversas Plugadas – Masterclass Spotify, com Carolina Alzuguir

Sábado (9), às 10h
Casa-Museu Solar Santo Antônio Bate-papo Tropical Transforma: Música pop, cultura urbana e identidade, com Coy Freitas, Gabriel D’Angelo Braz, Dai Dias e Patricktor4

Sábado (9), às 13h
Casa-Museu Solar Santo Antônio Bate-papo Promoção no Atual Mercado da Música: Feiras, mercado internacional e caminhos possíveis, com Melina Hickson, Ricardo Rodrigues e Vince de Mira

Serviço
O quê: 5º Festival Radioca
Quando: De quarta-feira (6) a domingo (10), em horários variados
Onde: Teatro Castro Alves (Campo Grande), Chácara Baluarte (Santo Antônio Além do Carmo) e Arena Sesc-Senac Pelourinho
Ingresso: R$ 50 | R$ 25 (dia 6), R$ 40 | R$ 20 (dia 7), R$ 20 | R$ 10 (dia 8), R$ 60 | R$ 30 (dia 9 e 10), R$ 110 | R$ 55 (dobradinha 9 e 10)
Vendas Sympla. Exclusivo para o dia 6: bilheteria do TCA, SACs dos Shoppings Barra e Shopping Bela Vista ou Ingresso Rápido
Entrada gratuita para os bate-papos

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