Espetáculo Holocausto Brasileiro estreia em Salvador

Espetáculo Holocausto Brasileiro estreia em Salvador

Palco de maus-tratos, torturas e mortes, o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, foi taxado pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia na década de 80 como um campo de concentração nazista. Mas se fosse uma psiquiatra negra brasileira a denunciar o maior manicômio do país pelas mesmas razões e pela morte de mais de 60 mil pessoas, será que o entendimento seria o mesmo? E se em vez do holocausto, ela associasse ao navio negreiro, a denúncia ressoaria com o mesmo peso?

Essas são algumas das indagações colocadas pelo espetáculo Holocausto Brasileiro – Prontuário da Razão Degenerada, que estreia nesta quarta (16), com ingressos esgotados, na Casa Preta, no Dois de Julho. A temporada segue até o dia 31 de outubro com apresentações de quarta a sábado, às 20h, e domingos, às 19h. Os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Com dramaturgia e direção de Diego Araúja, em colaboração com Bárbara Pessoa, o projeto de montagem foi idealizado pela produtora cultural Gabriela Rocha, sócia da Giro Planejamento Cultural, que assina a realização do espetáculo. Interessada pelos debates sobre loucura e luta antimanicomial, ela adquiriu os direitos para teatro do livro Holocausto Brasileiro, lançado pela jornalista mineira Daniela Arbex em 2013.

“Tive acesso ao livro no final de 2015, totalmente por acaso, e me chamou atenção pelo título. Li em um dia, fiquei muito impactada. O Hospital Colônia é um caso muito conhecido porque foi um hospital muito grande, e teve um olhar maior, mas não é um caso isolado”, destaca Gabriela, que em 2012 produziu o monólogo carioca Estamira – Beira do Mundo, que documentou a vida e a percepção da catadora de lixo Estamira Gomes de Sousa (1941-2011), doente mental crônica.

No livro, Arbex conta a história do Hospital Colônia de Barbacena, maior hospício do Brasil, onde milhares de pacientes foram internados à força, sem diagnóstico de doença mental, causando a morte de milhares de pessoas entre 1903 e o início dos anos 80. Apesar de sua capacidade inicial ser de apenas 200 leitos, em 1961 ele contava com cerca de cinco mil pacientes, todos tidos como “pessoas não agradáveis”: opositores políticos, prostitutas, homossexuais, mendigos e pessoas sem documentos; a maior parte deles, negros.

(Foto: Shai Andrade/ Divulgação)

É a partir dessa afro-perspectiva que a peça se propõe a analisar o manicômio e centros psiquiátricos de ontem e de hoje, debatendo com o adoecimento do sistema social, a loucura, o estigma e psicofobia sob o viés do racismo. “Eu já tinha ouvido falar do hospital, conhecia a história de matérias que tinha lido, mas eu só fui entender a complexidade quando li o livro esse ano. E eu não consegui avançar na leitura, porque me peguei vendo as fotos, a quantidade de corpos negros absurda, e me perguntando inclusive se o livro trataria dessa questão”, lembra Diego Araúja.

Na dramaturgia de Holocausto Brasileiro – Prontuário da Razão Degenerada, um grupo de artistas-documentaristas, observando a escassez de produções científicas sobre a ciência psiquiátrica em afro-perspectiva, decide dar visibilidade ao trabalho de uma intelectual negra esquecida e suas pesquisas sobre O Diagnóstico Moral dos Pacientes Psiquiátricos. O grupo se apoia na bibliografia, diários, entrevistas e áudios produzidos por ela.

Apesar das muitas fotografias, o livro de Daniela Arbex que serviu como inspiração para o espetáculo não aprofunda as discussões sobre racismo. “Foi com a abolição da escravatura que começou a surgir as leias antivadiagem, que encarceraram muitos negros, e que respondiam a uma política higienista e eugênica. Essa é um tema pouco discutido na psiquiatria ainda hoje, e isso não é algo gratuito”, reflete Gabriela Rocha.

O espetáculo também traça paralelos a disputas mais recentes em torno da loucura e da internação compulsória, sobretudo em relação à política de drogas. A presença no elenco de duas atrizes portadoras de transtornos mentais – Helisleide Bomfim, integrante do grupo Os Insênicos, e Yuri Tripodi, que também faz a assistência de direção – é reforço à desconstrução do estigma da loucura. Completando o quarteto em cena, estão Felipe Benevides e Marcia Limma.

(Foto: Shai Andrade/ Divulgação)

“Sempre me perguntei que padrão é esse de normalidade, e como a loucura era percebida a partir de cada contexto histórico. Durante 2012, percorri muitos Centros de Atenção Psicossocial e instituições psiquiátricas, e tive acesso direto a pessoas consideradas loucas, e não tinham nada diferente em relação a mim. Convidar pessoas portadoras de transtornos foi um ato político, e com elas pudemos pensar a dramaturgia que queríamos, a partir do que elas traziam de vivência no corpo, na carne, na militância antimanicomial”, destaca Gabriela, que viajou junto com o elenco para Minas Gerais para conhecer o Hospital Colônia e conversar com Daniela Arbex em maio. “Ela foi muito presente, muito generosa, nos indicou com quem conversar, nos apresentou a ex-internas e a pessoas ligadas à instituição”, lembra a produtora. No sábado (19), a escritora participa de um bate-papo gratuito no Goethe, às 15h.

A temporada na Casa Preta também é motivo de comemoração por parte da equipe. “A gente está fazendo no terraço, um sótão. o que é muito interessante porque joga com a ideia da cenografia, da espacialidade da peça. A peça é um documentário, mas tudo que é feito nela também gera documentos. Salvador tem um problema sério no que se refere a espaços, há poucos teatros que possam ser trabalhados de uma forma não-convencional, então caiu bem estrear essa temporada lá”, conta Araúja.

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