Jéssica Senra desabafa sobre pressão estética: ‘Não tenho uma boa relação com meu corpo’

Jéssica Senra desabafa sobre pressão estética: ‘Não tenho uma boa relação com meu corpo’

A jornalista e apresentadora da TV Bahia Jéssica Senra, 36 anos, fez um desabafo em suas redes sociais após ter sido questionada se estaria grávida. No relato, que foi compartilhado por ela nesta quarta-feira (16) no seu Instagram Stories, Jéssica revela que, mesmo sendo magra e estando dentro dos ‘padrões’ de beleza, ela não tem uma boa relação com o seu corpo há décadas.

“Eu não tenho uma boa relação com meu corpo. Há muitos anos! Há décadas, na verdade. Desde que comecei a trabalhar como modelo, aos 13 anos, e tinha que me apresentar de biquini nos testes enquanto me mediam com fita métria. Ou seja, sempre fui uma pessoa considerada bonita. Dentro dos “padrões”. Mas isso não me impediu de sofrer com isso. Desde então, passei a estar insatisfeita com meu corpo. A nunca achar que ele estava bom. E olha que sempre fui magra. Mesmo quando estava “acima” do peso, sempre podia ser considerada uma pessoa magra”, escreveu Jéssica no relato.

O texto foi escrito após um seguidor a questionar se ela está grávida. Ela compartilhou a mensagem da pessoa e pediu para que parassem de pressioná-la. “Por favor, parem a patrulha aos corpos alheios! Estou saudável – e com o menor peso em muitos anos! – e sigo recebendo mensagens sobre gravidez porque tenho o que TODAS as mulheres normais têm: barriga saliente na região do útero. Não exijam barriga negativa de quem não vive pra esculpir o corpo”, pediu.

(Foto: Marina Silva/Arquivo CORREIO)

Para a jornalista, esse tipo de pergunta faz com que as mulheres odeiem ainda mais seus corpos, se sintam inadequadas e pressionadas a estar cada dia mais magras, “mesmo que isso custe nossa saúde física, mental e a abdicação do prazer de comer sem culpa e de socializar”.

No meio do texto, a baiana conta que viveu a vida inteira sem gostar do que via no espelho e encontrando defeitos no corpo. “Pela primeira vez em muito tempo estou começando a gostar dele. Mas sigo com paranóias e culpas cada vez que como. E quando uma pessoa manda uma mensagem dessas é devastador!”.

Confira o desabafo escrito por Jéssica:

“Quero falar um pouco mais sobre isso, porque vejo que essa é uma questão para muitas outras mulheres…

Eu não tenho uma boa relação com meu corpo. Há muitos anos! Há décadas, na verdade. Desde que comecei a trabalhar como modelo, aos 13 anos, e tinha que me apresentar de biquini nos testes enquanto me mediam com fita métria. Ou seja, sempre fui uma pessoa considerada bonita. Dentro dos “padrões”. Mas isso não me impediu de sofrer com isso.

Desde então, passei a estar insatisfeita com meu corpo. A nunca achar que ele estava bom. E olha que sempre fui magra. Mesmo quando estava “acima” do peso, sempre podia ser considerada uma pessoa magra.

Mas vivi a vida inteira sem gostar do que via no espelho. Achando que o quadril não precisava ser tão largo. Que o braço é muito gordo. Que a barriga é grande.

Só há pouco temó me dei conta de quanto esse tema mexe comigo. Que preciso trabalhá-lo. Tenho focado em cuidar de mim, em exercitar o auto-amor e buscar as origens dessa insatisfação.

Faço terapia, ao mesmo tempo em que estou cuidado mais do meu corpo por amor a ele. Dando bons alimentos. Fazendo atividade física todos os dias. Pela primeira vez em muito tempo estou começando a gostar dele. Mas sigo com paranóias e culpas cada vez que como. E quando uma pessoa manda uma mensagem dessas é devastador!

Por isso, levanto essas questões e divido sentimentos tão íntimos com uma só intenção: a de fazer as pessoas repensarem quando forem falar algo para alguém. A gente nunca sabe quais são as dores do outro. Pessoas públicas também são pessoas. Também têm feridas. Também se magoam. Que possamos exercitar o cuidado com o outro o tempo todo. Que sejamos pessoas que plantam amor aonde a gente for”.

(Foto: Reprodução/Instagram Stories)

(Foto: Reprodução/Instagram Stories)

(Foto: Reprodução/Instagram Stories)

(Foto: Reprodução/Instagram Stories)

Antes de se comandar o Jornal Nacional, no último mês, a apresentadora da TV Bahia já havia falado com o CORREIO sobre pressão estética, gordofobia e cobranças. Na época, ela chegou a mencionar uma dieta “para estar no padrão” e “caber na televisão”. O comentário, porém, não foi bem recebido por seus seguidores, que acusaram Jéssica de gordofobia. Inconscientemente, o que estou dizendo é que só me sentiria bonita estando mais magra. Então foi muito chocante pra mim”, contou a jornalista, sobre o momento em que se deu conta de que tinha sido preconceituosa.

“Tenho dois sentimentos, hoje, em relação àquela postagem: um, vergonha mesmo, constrangimento, me sinto envergonhada de ter colaborado de alguma forma para essas opressões às quais estamos todos submetidos. Mas também estou extremamente grata, porque foi a partir dali que consegui mudar uma chave dentro de mim e perceber que eu preciso trabalhar isso, essa autoaceitação também”, confessou Jéssica.

(Foto: Reprodução/Globo)

Na época, ela chegou a mensionar o trabalho como modelo e a cobrança que sempre teve com seu corpo. “Foi muito traumático. Você imagina o que era para uma adolescente 13 anos passar por isso? Deixa marcas profundas. Depois, com o jornalismo, também passei a sentir essa opressão, que é da sociedade.

Basta eu ganhar peso pra ter gente insinuando que eu estou grávida, por exemplo, quando não é totalmente deselegante de dizer que eu estou gorda, que eu subi muito peso, aquela coisa de “aparentemente estou preocupada com você”, mas não é coisa nenhuma, é a coisa da imposição.

Em outros lugares onde Jéssica trabalhou, ela já foi chamada a atenção, quando ganhou peso, dizendo claramente que ela precisava emagrecer: “Para uma mulher que sempre investiu na educação, no conhecimento, no desenvolvimento pessoal, na comunicação, no próprio talento, que conseguiu se destacar dentro do seu meio, perceber que não importa se você é uma das melhores profissionais na sua área, a sua aparência vai contar. A forma do seu corpo é imposta por outros. Então, isso mexe muito comigo, são questões muito profundas que percebi durante essas críticas que eu preciso trabalhar.

Veja o que ela respondeu quando foi questionada sobre o tema.

Recentemente, você comentou que “precisa estar no padrão para caber na televisão” e, por conta disso, recebeu críticas. O que quis dizer com essa frase?
Fiquei muito feliz com esse fato, embora constrangida e um pouco envergonhada, porque logo que eu recebi a crítica, eu não entendi. Na minha cabeça, de alguma forma, a gordofobia tinha a ver com a não aceitação do outro, com a opressão ao outro, e quando falei sobre minha experiência, eu falava sobre mim, sobre as minhas cobranças pessoais, não achei que aquilo poderia ter ofendido alguém. Mas eu segui conversando com as meninas [entre elas, a consultora de imagem Kika Maia e a ativista contra a gordofobia Carla Leal] e acho que a gente precisa ter humildade para ouvir as críticas e ponderar se elas realmente fazem sentido, como naquele momento, porque às vezes a gente não tem a capacidade de compreendê-las. Conforme fui conversando com as meninas, eu percebi que faz total sentido.

Aí veio meu constrangimento, porque nunca me imaginei gordofóbica.

Luto diariamente pela necessidade da gente respeitar o outro do jeito que ele é, luto pela necessidade da gente enxergar a beleza na diversidade, e isso não é só da boca pra fora, sabe, é um exercício diário mesmo. E só aí me dei conta de que luto muito pelo outro, mas esqueço de mim e acabo me fazendo cobranças que às vezes eu nem faço ao outro.

Ao mesmo tempo, quando publico um vídeo dizendo que “vou emagrecer para estar bonita na televisão”, claro, hoje está óbvio pra mim que isso é uma forma de oprimir o outro. Inconscientemente, o que estou dizendo é que, só me sentiria bonita estando mais magra. Então foi muito chocante pra mim perceber.

Depois eu troquei mensagens com as meninas inbox, a gente trocou primeiro nos comentários, mas depois inbox nós conversamos muito. Em alguns momentos eu me emocionei demais, porque isso mexe profundamente comigo e eu não sabia o quanto. Então, tenho dois sentimentos, hoje, em relação àquela postagem: um, vergonha mesmo, um constrangimento, me sinto envergonhada de ter colaborado de alguma forma para essas opressões, as quais estamos todos submetidos, mas também estou extremamente grata, porque foi a partir dali que consegui mudar uma chave dentro de mim e perceber que eu preciso trabalhar isso, essa autoaceitação também. E que preciso ser extremamente vigilante, diante da posição que tenho de falar pra muita gente, de ser ouvida por essas pessoas, de cuidar do que eu falo pra não continuar alimentando esses padrões que são opressores para o outro e para mim também.

Você se cobra muito?
Essa troca me ajudou a entender que a gordofobia não é só quando você aponta o dedo para o outro, mas quando você se cobra também. Essa cobrança, pra mim, existe. Eu trabalhava como modelo e, pra mim, uma das coisas mais traumáticas desse período eram os castings em que a gente desfilava de biquíni e éramos medidas com fitas métricas para saber se estávamos no padrão. E um quadril acima de 90 cm, naquela época, era razão pra você estar fora dos desfiles mais concorridos. Então foi muito traumático. Você imagina o que era para uma adolescente 13 anos passar por isso? Deixa marcas profundas. Depois, com o jornalismo, também passei a sentir essa opressão, que é da sociedade.

Basta eu ganhar peso pra ter gente insinuando que eu estou grávida, por exemplo, quando não é totalmente deselegante de dizer que eu estou gorda, que eu subi muito peso, aquela coisa de “aparentemente estou preocupada com você”, mas não é coisa nenhuma, é a coisa da imposição.

Em outros lugares onde trabalhei, já fui chamada a atenção, quando ganhei peso, dizendo claramente que precisava emagrecer. Para uma mulher que sempre investiu na educação, no conhecimento, no desenvolvimento pessoal, na comunicação, no próprio talento, que conseguiu se destacar dentro do seu meio, perceber que não importa se você é uma das melhores profissionais na sua área, a sua aparência vai contar. A forma do seu corpo é imposta por outros. Então, isso mexe muito comigo, são questões muito profundas que percebi durante essas críticas que eu preciso trabalhar.

Todos nós temos a obrigação de nos desconstruirmos das imposições da sociedade. A gente tem que se desconstruir do machismo, do racismo, da homofobia, da gordofobia, isso passa por esses questionamentos.

Esses valores são colocados dentro de nós de forma que a gente nem percebe. E veja que o discurso que eu fiz tinha muito da opressão que eu abomino e que eu quero liberar da minha vida. Então, aquilo ali foi muito importante pra essa desconstrução, pra eu perceber que preciso cuidar daquilo principalmente dentro de mim. Olhar para minhas cicatrizes, olhar pra dentro dessas questões mais antigas.

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