Não brinque com o Coringa

Não brinque com o Coringa

Tem um momento do drama que narra a história do desequilibrado Arthur Fleck em que ele precisa entregar seu caderno de anotações para a terapeuta que o Estado lhe oferece. No jorro de escrita desconexa, piadas de gosto duvidoso e desenhos bizarros, uma frase faz todo o sentido para a construção de quem o aspirante a humorista se tornará: “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse.”

Pois é, o diretor Todd Phillips (Se Beber Não Case!) fez do seu já premiado Coringa um intenso tratado sobre a loucura para compor a gênese do icônico vilão do universo que cerca o Batman. Mas não só isso. Vai além, refletindo sobre como as democracias em processo de colapso, organizadas pela exclusão das classes trabalhadoras e minorias, digerem suas próprias distorções numa sociedade cada vez mais adoecida. No caso de Gotham, como já se sabe há tempos no universo dos quadrinhos, o caos reina absoluto como válvula de escape à desigualdade social.

Na pele do Fleck que vemos, atrapalhado na rotina do clássico ‘perdedor’ americano, ainda não há Coringa, interpretado de forma magnífica por Joaquin Phoenix – forte candidato ao Oscar. Do vilão cruel somente a sugestão da risada histérica, explicada como consequência de um dos muitos transtornos psiquiátricos que sofre.

Na trama bem construída, com referências interessantes ao antagonismo com o Homem Morcego, Fleck é um fiapo sofrível. Ele cuida sozinho da mãe deprimida, vive em estado de penúria financeira e trabalha como palhaço em subempregos na esperança de um dia comandar seu próprio show. Solitário, pede afeto o tempo todo e declara que não viveu um dia sequer de felicidade. Seu inimigo é o mundo inteiro.

Indicado a três Oscars, o ator emagreceu 24 quilos para viver o Coringa (foto/divugação)

Não se trata aqui de um filme de herói convencional, como nos acostumamos a ver pela Marvel. Muito menos feito para crianças – como a trilogia do Cavaleiro das Trevas e Logan, Coringa marca seu tempo.

A gente morre de pena, sim, e acompanha o que nenhum outro Coringa tinha mostrado até agora: o processo gradativo de perda da humanidade. O palhaço ainda muito perene de Heath Ledger entrega pistas no Batman de Christopher Nolan, mas seu personagem já chega ‘pronto’.

Num ímpeto de descontrole, esse Coringa se desamarra de Arthur e experimenta a liberdade de extravasar na violência, assumindo um espaço confortável na loucura. Joaquin Phoenix trabalhou duro para criar num território tão manjado. Emagreceu 24 quilos e estudou a fundo a loucura, sem necessariamente se inspirar em nenhum outro Coringa – talvez, o mais próximo do seu trabalho seja o palhaço da HQ Asilo Arkham (Grant Morrison/texto e Dave McKean/arte).

“Ele se comporta de uma maneira repugnante, mas não podemos deixar de tentar entendê-lo. Se olharmos para a violência com a perspectiva do trauma na infância, veremos que essas pessoas se comportam reagindo às condições em que viviam”, explica Phoenix.

Criticado pela glamourização da violência, sobretudo nos Estados Unidos, onde há o temor que os atos do vilão inspirem jovens a cometerem crimes semelhamtes, o filme vem sendo comparado à cultural incel. Não é isso, creia.

Joaquin Phoenix defende: “Acusar um filme de glorificar a violência é um absurdo, uma maneira simplista de encarar os problemas. E não acho que seja responsabilidade do cineasta ensinar a moralidade pública. Acho que o público sabe diferenciar o certo do errado”.

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