‘O Futuro Não Demora’, da BaianaSystem, fatura o Grammy Latino

‘O Futuro Não Demora’, da BaianaSystem, fatura o Grammy Latino

O disco ‘O Futuro Não Demora’, da BaianaSystem, foi escolhido o Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa na 20ª edição do Grammy Latino, na noite desta quinta-feira (14).

A cerimônia de entrega dos prêmio ocorreu no MGM Grand Garden Arena, em Las Vegas, nos Estados Unidos.

A banda baiana superou os álbuns ‘Vulcão’, do The Baggios, ‘O Céu Sobre A Cabeça’, de Chal, ‘Goela Abaixo’, de Liniker E Os Caramelos, além de ‘Matriz’, da conterrânea Pitty.

O álbum foi lançado no ano que a banda completa 10 anos de existência, e representa o terceiro disco de carreira do grupo formado por Russo Passapusso (voz), Roberto Barreto (guitarra) e Seko Bass (baixo).

O álbum conta com produção de Daniel Ganjaman e co-produção do próprio grupo, assim como ‘Duas Cidades’, de 2016.

‘O Futuro Não Demora’ tem várias participações e colaborações, e, segundo o site do grupo, traz uma narrativa que nos leva por um fio condutor com início, meio e fim.

Leia trechos da apresentação da obra, gravada na Ilha de Itaparica, feita pela própria banda:

A primeira faixa chama-se “Água”. A última “Fogo”. E temos a “Melô do Centro da Terra”, faixa que marca o meio da história, dividindo o disco em lado A e B, Água e Fogo, representando elementos vitais para o entendimento dessa obra e suas ramificações.

Essas duas faixas remetem ao início do trabalho de criação e composição que são partes de uma sinfonia que começou a ser escrita juntamente com o maestro Ubiratan Marques, regente da Orquestra Afrosinfônica e que tem grande participação no disco, compondo, tocando e fazendo arranjos.

Na faixa de abertura, a participação de dois ícones da música popular brasileira: a dupla Antônio Carlos e Jocafi, responsáveis por inúmeros sucessos na década de 70, co-autores desta e de outra música emblemática do disco, “Salve”. Dois ijexás em sua essência, ritmo fundamental para o entendimento da música produzida na Bahia há muito tempo, e que aparece de maneira bem marcante no álbum. “Salve” conta também com a participação de B Negão, parceiro desde o disco de estreia e que encerra de maneira forte e marcante essa música que homenageia a Zulu Nation, Nação Zumbi, Ilê Aiyê e a Orkestra Rumpilezz.

Com a carga política forte trazida por esses nomes e a clara ligação com a música latina e da América Central, a viagem segue com a música “Sulamericano” que tem a participação de Manu Chao. Manu traz para faixa a figura do “Señor Matanza” personagem já presente em outras músicas suas, e nos banha com suas imagens e ideia de uma real América Latina.

Outras participações que chegam de maneira marcante são os paulistas Curumin e O Novíssimo Edgard, que colaboram na faixa “Sonar”, com ares de Rocksteady e cheiro de Jamaica, fazendo a comunicação pelo mar diretamente com o Centro da Terra.

Aí aparece a figura mítica do Mestre Lourimbau, cantor, compositor e artesão de Salvador, que vem entoando uma espécie de mantra no “Melô do Centro Terra”, diálogo de Berimbau e Guitarra Baiana composta originalmente para trilha sonora do filme “Trampolim do Forte”, rodado em Salvador há exatos 10 anos.

A partir daí pegamos um “Navio” e começamos a atravessar o Atlântico em direção ao Fogo, num lamento vindo de Angola e com o peso dos tambores do samba-reggae. “Navio” tem participação e regência de Mestre Jackson, uma lenda da percussão na Bahia, com passagens pelo Olodum, Comanches do Pelô, Apaches do Tororó etc, e que regeu a gravação da maneira clássica dos blocos afro, com um time de 10 percussionistas gravando ao vivo. E novamente através dos movimentos Atlânticos seguimos para a Inglaterra para se juntar ao produtor inglês Adrian Sherwood, clássico produtor de DUB com grande ligação com artistas jamaicanos, para finalmente termos uma faixa Samba-reggae Dub orgânica, uma teia de ligações da diáspora.

O Navio então se desdobra em um barco, um pequeno bote que faz a ligação com o Recôncavo Baiano e ao mesmo tempo com o sertão mais distante, e vai buscar numa comunidade Quilombola de Senhor do Bonfim o “Samba de Lata de Tijuaçu” onde as sambadeiras se fundem numa embolada onde o mar vira sertão, e o orgânico se funde aos beat eletrônicos e synths produzidos por João Meirelles.

Imagens de armadilhas, helicópteros, carros, sacis urbanos, antropofagias, e todo esse caldeirão da cidade toma conta desse lado fogo, e chegam com força na faixa Certoh pelo Certoh, um relato direto e certeiro do rapper Vandal, um cronista das ruas e quebradas de Salvador, que aparece aqui também menos banhado de beats, mas de maneira crua, calçado nos tambores. Essa faixa também traz a desconstrução e vitalidade das guitarras de Junix 11, produtor, compositor e colaborador do BaianaSystem há muitos anos, e que ao longo do disco deixa sua marca inconfundível.

O disco mostra também um trabalho muito forte de arranjos e concepção de percussão por parte de Icaro Sá e Japa System. Ícaro que vem do pelourinho e tocou muitos anos com Ramiro Musotto, Orkestra Rumpillezz, Arto Lindsay e muitos outros artistas, é colaborador constante do BaianaSystem em palcos e gravações, e Japa System tem um trabalho de pesquisa muito forte com a percussão eletrônica e sua fusão orgânica com a percussão afro-baiana, e é integrante do grupo também há muito tempo.

A obra se encerra na faixa Fogo, mais uma vez com o maestro Bira e a Orquestra Afrosinfônica, onde aparecem novamente os versos “Já aconteceu com você, aconteceu comigo”, citados no início na faixa Salve, e que faz com que o disco volte para o início e tenha um sentido de continuidade, de ciclo. Como sempre acontece com o BaianaSystem, tudo isso só completa todo o sentido com as imagens que banham todo o processo. Ideogramas, símbolos, grafismos, mapas, seres e cores se juntam aqui para banhar nossos sentidos, traduzir, ajudar a contar esse capítulo que mergulha na história para nos entender agora, no momento que estamos e pra onde podemos apontar. O Futuro não Demora.

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