Siron Franco lança exposição inédita em Salvador: ‘Sempre me senti baiano’

Siron Franco lança exposição inédita em Salvador: ‘Sempre me senti baiano’

Foi na Bahia que o artista plástico goiano Siron Franco fez sua primeira aparição nacional. O ano era 1968, e a ocasião a II Bienal da Bahia. Na abertura do evento, duas de suas três obras foram consideradas subversivas, e destruídas pelo regime militar. Com a remanescente, Cavalo de Troia, Siron veio a conquistar o Prêmio Aquisição.

Talvez esteja aí o marco da relação que ele mantém até hoje com a Bahia, e mais especificamente com Salvador, onde veio a ter um ateliê. “Se bem que, há dois anos, vim descobrir que meu avô era baiano”, diz Siron, especulando um laço ancestral.

Nesta terça-feira (12), ele lança a exposição inédita Miragens, na Paulo Darzé Galeria (Corredor da Vitória), e acrescenta mais um acontecimento a essa ligação. A mostra, que segue em cartaz até o dia 13 de dezembro, reúne 44 obras feitas entre os anos de 1997 e 2019, algumas delas iniciadas na cidade.

“É como se eu fosse guardando tudo isso em gavetas, e abrindo uma a uma ao longo do tempo até resultar nessa exposição. É raro eu ter um quadro feito somente em um ano. Vou esboçando o que quero, virando, mudando de posição na parede. Eu trabalho com estágios, tem quadro em que eu chego até o 17º estágio. Como a tinta óleo demora a secar, eu aproveito isso para fazer uma reflexão melhor, para entender onde a obra quer me levar”, explica Siron sobre seu processo criativo.

“Eu gosto do fazer, do construir uma coisa que está nascendo, mas você não sabe o que é. É como um ovo, você não sabe que animal vai sair dali. Picasso falava que ele não procurava nada quando produzia a arte dele, ele achava. Eu vi essa frase cedo, e ela me ajudou muito nesse sentido, de procurar o desconhecido” – Siron Franco

Em Miragens, ele segue em busca do novo sem se esquecer de sua obra pregressa. Para Charles Cosac, que assina o catálogo da exposição, Siron não tem receio em se arriscar, se expor e de não se fazer compreendido. “Para ele, tudo não passa de uma questão de tempo”, diz o ex-editor da Cosac Naify, uma das mais prestigiadas editoras de livros do país, cujas atividades se encerraram há quatro anos.

Nem mesmo meio século de pintura foram capazes de esmaecer o colorido marcante de suas relas. Muito pelo contrário. Na exposição inédita, as cores aparecem vibrantes, em imagens superpostas, duplicadas e em diferentes camadas, reforçando o fenômeno da ilusão de óptica, definidor das miragens. “Quando eu era garoto, eu me interessava muito por miragens. Goiás é quente, aquela coisa no asfalto, aquela onda de calor, que modifica a estrutura. Quis relembrar isso, já que estamos vivendo nesse mundo caótico, de tantas fake news, que alteram nossas percepções”, explica.

Todos os quadros, foram nomeados a partir da posição que ocupava na fila de conclusão. “À medida que ia terminando, dava os nomes. Não são títulos, são nomes, para identificar, mas que não reduzem as obras, que são muitos mais que seus nomes. Assim eu tenho a Primeira Miragem, a Segunda Miragem, a Terceira Miragem e assim por diante”.

Siron também comenta a explosão de cores que chamam atenção de imediato de qualquer visitante. “Às vezes o trabalho está mais aquarelado, em outros eu tenho partes com um volume maior de tinta…No entanto, em todos eles eu lido com a secagem, com o efeito tempo, e com a vontade de escapulir daquilo que eu já criei”, diz.

(Foto: Divulgação)

Presente
Apaixonado pela Bahia, o artista comemora o retorno: “Sempre me senti um baiano”. Tanto assim que sempre tentou retribuir com sua arte o que cultivou por aqui. Uma das suas obras mais conhecidas é o painel de desenhos rupestres em alumínio, instalado num paredão próximo ao Dique do Tororó, na ocasião do aniversário de 454 anos de Salvador. Dezessete anos depois da inauguração, Siron negocia com a prefeitura a recuperação da obra, que teve suas 454 peças roubadas. Cada uma delas, retratava figuras rupestres encontradas em cavernas pelo Brasil.

“Ali tinha reproduções de pinturas rupestres de 18, 30 mil anos. Na época. envolvi o pessoal que cata latinhas, teve um trabalho social em tudo aquilo”, explica o artista. A solução que ele prevê, agora, é refazer o trabalho com outro material, que não tenha valor de revenda, como era o caso do alumínio. “Penso em fazer com pedras, cortar o granito na mesma dimensão, para ver se não roubam. Além disso, com a pedra, não tem a preocupação com o desgaste natural”, comenta. O projeto de reconstruir o painel estava sendo gestado há anos, desde quando a última peça foi retirada, em 2013. “Ainda guardo as matrizes das peças, então é viável algo nessa linha”, comenta.

Outra empreitada importante que ele comandou na cidade foi a instalação de uma cápsula do tempo no Solar do Unhão, em 1997, e que só que será retirada em 2097. Nela, foram colocados recados de artistas, cientistas, de meninos de rua, de prostitutas, e comerciantes de Salvador.

“Tudo foi embalado a vácuo e colocado em caixas de aço inox, que foram implantadas na forma de um totem. Eu não sei o que as pessoas escreveram, mas tem muito material de uma época ali. Foi um trabalho muito legal de fazer”, recorda ele, que também depositou objetos pessoais na cápsula. “Pus roupas minhas, objetos de higiene pessoal, alguns ecritos, e também recomendações sobre como fazer uma exposição com tudo aquilo. Espero que eu tenha um bisneto que ponha isso em prática”, deseja.

“É muito bom quando você pode usar a arte para contar história, não só a sua, mas a de todo mundo. A sociedade é formada por todo essa gente” – Siron Franco

Uma de suas grandes crenças é a que a de que a arte tem a finalidade de tentar dias melhores para o homem. Por isso, sua fraze mais reproduzida carrega justamente essa certeza: “Eu tento, ao meu modo, testemunhar a minha época, o que faço é uma crônica subjetiva da época em que vivo”. Sua fonte de inspiração sempre foi extraída dos fatos e acontecimentos recentes e passados, principalmente aqueles com implicações sociais, políticas e ambientais.

Documentário
A vida e a obra de Siron Franco são lembradas no documentário Siron – Tempo Sobre a Tela, que tem circulado por festivais no país, e ano que vem deve entrar em circuito comercial. Dirigido por Roberto Campos e André Guerreiro Lopes, o filme acompanha o artista plástico em Londres por três meses, em meados dos anos 2000. O reencontro veio apenas ano passado, quando os cineatas visitaram o ateliê do artista, em Goiás, com a finalidade de registrar novas imagens. A princípio, a ideia dos cineastas era partir do hiato entre os dois encontros com Siron como fio condutor do documentário.

“Eu tenho um acervo com centenas de fitas VHS, além de rolos em Super 8, com gravações que faço desde os anos 70. Isso supreendeu a eles, que decidiram usar o material e fizeram uma montagem belíssima. Eles recuperaram até um filme que fiz há 53 anos, Caixote, e que foi censurado na época”, destaca Siron.

Segundo Rodrigo, as imagens serviram para costurar diferentes momentos da trajetória do artista. “O filme é o embate dele com a sua criação ao longo do tempo”, resume. A próxima parada é o Festival de Brasília, que acontece entre os dias 22 de novembro e 1º de dezembro, na capital federal.

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